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02/07/2009
Emir Sader: "A América Latina surpreende o mundo ao contestar o modelo que até então reinava absoluto"
O sociólogo Emir Sader foi o palestrante da noite de ontem (1º) no 10º CECUT em Florianópolis. O evento, que acontece até sexta-feira (3), reúne mais de 350 cutistas de todo o estado.
Sader falou sobre o momento de crise financeira que vive o Brasil e o mundo e o colapso do modelo econômico capitalista. “Capitalismo não é feito para gerar emprego e renda, é feito para gerar riquezas”, declarou ao ressaltar que a “riqueza continua sendo gerada pelos trabalhadores e não por executivos que se gabam de chegar às seis da manhã no escritório”.
A participação dos movimentos sindicais na 1ª Conferência Nacional de Comunicação, que o governo Lula promoverá em dezembro, foi classificada por Sader como fundamental para as grandes mudanças necessárias à democratização das mídias. “A ditadura da mídia privada é um absurdo. Se eu fosse dono de jornal mandava todo mundo embora por justa causa e por falta de produtividade”, disse ele ao declarar que os jornais ocultam dos brasileiros o verdadeiro Brasil. O sociólogo exemplificou esta postura lembrando uma declaração dada por um jornalista da Folha de São Paulo em decorrência da vitória de Lula em 2002 em que afirmava que o povo havia derrotado a opinião pública.
Sader lembrou a aprovação do relatório favorável a PEC que prevê a redução da jornada de trabalho de 44 para 40 horas semanais. Ele lembrou que a partir de 2010 a jornada de trabalho na Venezuela será de seis horas na lógica de trabalhar menos para mais trabalharem. “Quando o argumento para não reduzir a jornada é que irá aumentar os custos, temos que quebrar o discurso informando que para resolver isso é só diminuir lucro”, declarou.
Já sobre o sistema bancário Sader propôs à plenária se dirigir ao gerente de um banco com a proposta de abrir uma conta e depositar 10 reais. “Ele lhe parabenizará e dirá que em um mês você terá um rendimento de 0,3%. Feito isso, vá até o outro balcão e peça 10 reais emprestado, eles irão te cobrar juros de 8% ao mês”, comparou.
Os argumentos apresentados por Sader podem ser lidos e aprofundados através de seu livro A nova toupeira, os caminhos da esquerda latino-americana, lançado em Florianópolis na noite de ontem durante o CECUT.
Sobre o livro
A toupeira, animal com problemas de visão, circula embaixo da terra sem fazer alarde e surge onde menos se espera. Sua figura aparece em obras de pensadores tão díspares quanto Shakespeare e Marx. Segundo Sader, “tal imagem remete às incessantes contradições intrínsecas do capitalismo, que não deixam de operar, mesmo quando a “paz social” – a das baionetas, a dos cemitérios ou a da alienação – parece prevalecer”.
Como aponta o autor, na virada para do terceiro milênio a América Latina surpreende o mundo ao contestar o modelo que até então reinava absoluto. Assim, foram eleitos os presidentes Hugo Chávez na Venezuela (1998), Lula no Brasil e Néstor Kirchner na Argentina (2003), Tabaré Vázquez no Uruguai (2004), Evo Morales na Bolívia (2006), Daniel Ortega na Nicarágua e Rafael Correa no Equador (2007) e Fernando Lugo no Paraguai (2008). Paralelamente, “a proposta norte-americana de um tratado de livre-comércio para as Américas, aprovada quase unanimemente em 2000, foi rejeitada e enterrada em 2005”.
Diante deste quadro, A nova toupeira procura entender em que medida o neoliberalismo permanece hegemônico, analisando a natureza dos atuais governos latino-americanos e propondo um debate fundamental para a compreensão das questões políticas de nosso tempo.
O volume conta com caderno de imagens de líderes e revolucionários latino-americanos. Orelha de Michael Löwy e quarta capa de Eduardo Galeano.
Trecho de A nova toupeira
“O continente americano é o de maior grau de desigualdade no mundo – e, portanto, de injustiça –, situação que só se acentuou com a década neoliberal, mas os duros golpes sofridos pelo campo popular, tanto com as ditaduras quanto com as políticas neoliberais, não faziam pressagiar uma mudança tão rápida e profunda. Buscaremos compreender as condições que permitiram uma virada tão radical e transformaram o paraíso neoliberal em oásis antineoliberal num mundo ainda dominado pelo modelo neoliberal, assim como o potencial e os limites dessa virada, num marco continental e mundial.”